O que importa é dar o primeiro passo.
O que importa é dar o primeiro passo.
Aquele slogan de propaganda de sapatos com certeza era um bom começo de livro. – o recentemente formado jornalista, atualmente desempregado, e por ora escritor sem inspiração, pensou. Com sua imaginação fértil, seu tempo livre, e sua necessidade imensa de dizer para alguém alguma coisa que ele ainda não sabia o que era, o rapaz começou diante da luz acolhedora do seu monitor a imaginar personagens que pudessem surgir daquela frase simples que para ele, sem dúvida, era um ótimo começo de livro.
Imaginou a moça simples, que grávida fora expulsa de casa e agora se via na rua da amargura, sem emprego tendo como única opção para sustentar a si e a criança que levava no ventre, se prostituir. Ela, pensou ele, seria a personagem correta para o dilema gerado pelo primeiro passo, pois antes devido a toda sua criação, acreditava que para aquela moça não era nada fácil tomar essa decisão assim, de uma hora para outra. Por outro lado, continuando o pensamento, concluiu que na situação em que a pobre moça se encontrava, seria necessária muito pouca reflexão moral, e muito mais oportunidades de se prostituir do que aquele início impactante, beirando ao filosófico, sugeria. Tentou então, transferir o slogan para poucos anos depois da vida da mesma prostituta, no momento decisivo em que a mesma, após anos de exercício da profissão, recebera a proposta de um caminhoneiro para com o mesmo se amasiar e constituir família. Neste momento, constatou nosso autor, é certo que as questões interiores para ela falam mais alto que as oportunidades práticas de sua carreira, no que estaria totalmente correto em começar sua grande obra com aquela frase pragmática. Imaginou a cena da mulher, em seu quarto de bordel, juntando suas coisas na mala, logo após ter discutido a proposta com a sua cafetina. Sentou-se diante da penteadeira, tentando ganhar forças para realmente tomar sua decisão. As rugas que começavam a aparecer, os cabelos começando a branquear foram decisivos para que ela decidisse em abandonar de vez aquela vida, e o nosso autor, de vez aquela idéia, pois num estalo chegou a conclusão que pouco conhecia sobre prostitutas e muito menos ainda, sobre prostitutas ou mulheres de meia idade, logo seria uma improbabilidade tentar escrever sobre tal assunto.
Adveio ao nosso jovem autor, já não tão jovem assim, pois já estava próximo à casa dos trinta, que uma personagem masculina, aumentaria suas chances de escrever com sucesso. Inspirado no cigarro que acabara de acender, imaginou o drogado que sozinho, acabara de se dar conta do mal que fizera a si e as pessoas a quem amava, e decidido, resolvera mudar de vida ingressando numa clínica para tratamento do vício. Visto que drogados raramente chegam à essa decisão sozinho, e que sua experiência com tóxicos era bastante reduzida, o que o fez cair novamente as suas chances de êxito literário, o já não tão entusiasmado autor decidiu trocar a personagem central de sua história, pelo amigo de infância, ou melhor, o irmão mais velho e sábio do jovem drogado que interna-se em uma clínica de recuperação. É certo que para o familiar daquele jovem, a felicidade em saber que ele estava dando o primeiro passo, é certamente importante, mas seria o mais importante? Novamente chegava ao indeciso escritor, a dúvida, aumentada exponencialmente pelas dificuldades que ele observava por ser filho único, ter pouco contato com seus familiares.
Já um tanto desorientado pela escolha infeliz que fizera da frase inicial de seu livro, o frustrado redator decide-se começar a trama com um pouco de humor. A frase em questão seria dita por ninguém mais ninguém menos do que um infeliz acidentado que durante um jogo de futebol, quebrara a perna e ficara seis meses sem andar. Após a primeira sessão de fisioterapia ele chega a conclusão, com auxilio de seu fisioterapeuta de que o que importa é dar o primeiro passo, coisa que ele ainda não deu mas que sem dúvida em breve dará. Mas visto que a inclusão do humor na trama resolve o problema da frase inicial, mas não dissolve o problema da fluência da trama em si, o nosso jovem desempregado, desiste do texto e chega à conclusão que: O difícil é dar o primeiro passo.
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