terça-feira, 24 de julho de 2007

O Eu do outro lado do espelho


Não é um acontecimento tão raro ou incomum assim. A maioria dos seres humanos deste planeta já passou por isto. O que varia, de pessoa para pessoa, é a freqüência com que isto ocorre, que vai desde uma vez na vida, até uma vez a cada hora; e a intensidade com este instante acontece; além é claro de todos os fatores psíquicos, químicos e sociais que propiciam que o encontro ocorra, os quais por sua vez, variam desde a altas doses de álcool no sangue até graves desilusões amorosas em seu ultimo relacionamento passando é claro pelo comentário infeliz daquele conhecido que esbarrou contigo na rua hoje, dois anos após vocês terem se visto pela última vez: “Nossa você engordou...”

O acontecimento a que me refiro, tende a ocorrer naquele cômodo da casa onde menos se espera se esbarrar com outra pessoa, é claro subtraindo-se da totalidade de pessoas na terra os tarados, sobretudo os gays tarados, já que para os mesmos este ambiente é sempre um local ideal para se encontrar outras pessoas. É evidente que falo do banheiro. 98% dos registros desses encontros relatam que os mesmos ocorreram nestes ditos locais. Os outros 2%, variam bastante, e pairam sobre os mesmos a dúvida cientifica gerada pelo aumento dos fatores de probabilidade que fizeram com que os mesmos ocorressem. Só para citar, há o caso extremamente insólito, da senhora com os seus quarenta anos, que ao voltar sozinha de uma despedida de solteiro, às 4 horas da madrugada se viu obrigada a ficar de quatro numa estrada erma para trocar o pneu furado do seu carro, e ao observar atentamente a calota polida da roda teve o encontro. Outra experiência incompreensível é a do estudante de odontologia que ao tentar tratar de uma carie no molar cariado de um paciente, teve naquele espelhinho peculiar um encontro tão definitivo, que o fez abandonar, de uma vez por toda, as pretensões para aquela profissão. Mas vamos nos concentrar nos casos normais dessa experiência quase comum.

A experiência a ser relatada ocorreu numa manhã de terça feira, pouco depois de nosso personagem fazer 30 anos. Acabara de acordar, e de olhos ainda semicerrados começou a esfregar água no rosto a fim de enviar os fantasmas do pesadelo que tivera para as cucuias. Foi então que o viu, ali diante de si, no que esperava ser o reflexo de seu rosto, de seu tão estimado rosto, aquela figura hedionda, que tinha certeza não era o seu Eu atrás do espelho. A palidez de sua pele, as rugas de preocupação, as espinhas, cravos e pelos encravados, os cabelos desgrenhados e pequenas raízes brancas começando a despontar. Não era ele, tinha certeza. Não disse palavra. Os olhos de um mostravam claramente a raiva recíproca que sentia pelo outro.

Sem dizer palavra, jogou a toalha de rosto sobre o espelho e voltou novamente para cama. Após um encontro desnorteador como esse, dormir é sempre o melhor remédio. È o que disseram terem feito 75% dos pesquisados ao relatarem estes encontros para os cientistas em entrevistas. Constam como segundas opções para o problema: a) esconder a face sob máscaras com camadas grossas de cremes anti-sinais; b) colar no espelho do banheiro um pôster com a sua face naquela foto que você tanto ama; c) mergulhar com vontade num copo de bebida. Adverte-se para o item c, no entanto, a periculosidade de um novo encontro, na superfície refletiva do fundo do copo.

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