quinta-feira, 1 de setembro de 2011
A Luta
Já não sei dizer se ainda sei sentir, o prazer de entrar em uma sala de aula e passar 50 minutos tentando mostrar para meus alunos a importância de saber algo. E eu sempre tive esse prazer. Sempre achei gratificante que um aluno meu depois de conseguir resolver um exercício virasse pra mim e dissesse. – E aí? Aprendi? – O sorriso saía fácil, e sincero. Hoje não é assim. A cada matéria ensinada eu me pergunto: - Pra que? Por que ele precisa aprender isso? Eu sei, eu tô aqui,de que isso me serviu?- A cada dia que passa na sala de aula, eu perco minha motivação. Não sei se é algo natural, que acontece com todo mundo quando vai envelhecendo na carreira, não sei é crise de identidade ou coisa assim, não sei se é contaminação pelo meio que me cerca onde todos só dizem: saia da educação enquanto dá tempo. Mas uma coisa eu sei, meu problema começa com certeza no meu salário. Sempre acreditei em vocação, nem sempre a nossa vocação é aquilo que desejamos, mas é algo nato, que vamos aperfeiçoando no meio do caminho. Desde pequeno sou professor. Quando eu estava na quinta série comecei a dar reforço para meus vizinhos do 3° e do 4°. Durante o Ensino Médio era o líder dos grupos de estudo. Durante a faculdade eu tirava em novembro, dezembro e janeiro cerca de 1500 reais mensais com aulas particulares e trabalhos numa época em que o salário mínimo era 180 ou 200 reais. Aí, aconteceu: eu passei no concurso, preferi entrar no Estado e ter uma quantia certa todo mês do que estar a mercê de aulas que talvez desaparecessem. E de lá para cá a minha chama está se consumindo lentamente, na medida em que meu salário congelou (ele pode até ter sofrido variação de 50 a 200 reais nesses 10 anos, mas isso é irrisório uma vez que o salário mínimo nesse mesmo tempo sofreu reajuste de 250%) e o meu poder aquisitivo caiu. Mesmo com a chama trêmula, ainda tive alegrias nesses dias ruins. Consegui, isto é fato, influenciar e inspirar vários de meus alunos a buscarem conhecimento, serem bons estudantes, passarem em vestibulares, e fiquei muito, mas muito feliz com isso. Em 2007, eu cometi um erro gritante quando passei em um concurso municipal, para professor, e não assumi, achando que pior do que o salário do Estado estava, não podia ficar, crendo que no ano seguinte haveria melhorias certamente. Como eu estava errado. Em 2008 veio a Lei do piso, e eu ganhei o teto de 850 reais do governo Aécio que me roubou biênios, qüinqüênios e pó de giz, e me deixou fazendo contas de a partir de quando eu veria meu salário crescer novamente. As dívidas cresceram, os empréstimos começaram e cada quinto dia útil que ia ao banco era uma revolta interna que se formava. Nesse tempo, tentava no fundo do meu espírito, achar forças na minha crença em meu papel social e humano junto aos alunos para não enlouquecer. Conduzi projetos, sem ganhar nada por isso, me empenhei mais e mais por fazer a diferença, e me vi refletido em vários de meus colegas. E então, em 2010 ela aconteceu, a liderança que eu esperava, o movimento que eu ansiava, e o resultado lamentável: um estúpido subsídio que ninguém queria, mas que fomos obrigados a engolir, e obrigados no sentido de forçado mesmo, goela abaixo. Se ganhei esperança na educação com a greve, perdi esperança na política com a mesma. E maior ainda foi a decepção quando em outubro pude conferir o resultado das urnas. Matutando comigo mesmo eu cheguei a conclusão que o que definiu o resultado político de 2010 chama-se dinheiro, verba, investida maciçamente em mais de 90% dos municípios mineiros para compra de votos. Ora se o que define a política é dinheiro de verba, e não a representatividade do executivo ou legislativo diante da população; por analogia, deveria ser salário e não vocação que deveria definir a minha carreira na educação. Pois bem, com uma sorte de poucos, novamente passei num concurso, agora em outro município. Vacinado, não cometi o mesmo erro e correndo exonerei de um dos meus cargos do Estado. Qual não foi a minha surpresa: se antes eu não tinha piso, acreditem, passei a ter dois pavimentos, muito bem acabados. Mas aí, em vez da alegria, veio a raiva, veio o ódio, a indignação. Cheguei a ouvir de um colega meu na nova Escola que quem é funcionário do Estado paga para trabalhar, e como negar isso quando se faz as contas, quando se coloca tudo no papel. Da raiva veio a força, e estou na luta. A minha luta é minha, é pela minha honra, minha dignidade, é pelo fato de nós últimos 10 anos eu ter me sacrificado e ganhado com isso o que? – dívidas, prêmio por produtividade, e melhor, subsídio – eu odeio palavras que começam com sub, quando escuto lembro de coisa ruim, submundo, subserviência, subnutrição. A minha luta é egoísta, eu luto nas minhas condições, com a minha força, e com o meu limite. Não vou aceitar nada além do que o justo, o que está na lei federal, o que já deveria estar recebendo desde início de 2010. Já fiz meu sacrifício, troquei meus alunos do EM por alunos do EF, troquei a minha matéria predileta, por outra que domino da mesma forma. Sacrifício por sacrifício estou disposto a fazer mais um, o final, o completo. Não serei escravo do Sr. Anastasia, nem de sua corja, e não compactuarei com mentiras, ou omissões. Pague-se o piso, dentro da carreira, com a proporcionalidade dos dois terços de sala de aula. É isso ou minha exoneração, ou quem sabe licenças e LIP até ver no que dar.
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